O Gato Professor

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Conto do folclore chinês recontado por Tatiana Belinky

      Numa montanha se escondia um tigre de patas pesadas e lentas, que não podia andar nem saltar com agilidade. Tinha força, mas essa de pouco lhe valia porque raramente conseguia agarrar a presa que cobiçava.

      Um belo dia, quando o tigre saía da sua gruta à procura de alimentos, cruzou com um gatinho que vinha pulando e saltando alegremente. Os movimentos flexíveis e a agilidade do gatinho despertaram a inveja no tigre, que pensou consigo mesmo: “Que bom se eu pudesse ser ágil assim”. Então, em tom suplicante, dirigiu-se ao gatinho:

       – Mestre Gato, pode ensinar-me a arte de passar ligeiro por montes e vales, saltando como você?

      O gatinho bem sabia que o tigre era bicho de maus bofes. Pensou que ensinando-lhe a sua arte poderia colocar em perigo a própria vida. Então respondeu, cautelosamente:

       – Não digo que não, mas tenho medo de que quando você souber correr e saltar como eu, você se mostre ingrato.

      O tigre fez uma vênia profunda e disse:

       – Mestre Gato, se você se dignar a tomar-me como aluno, prometo que jamais serei ingrato. Se alguém o ofender, juro que darei minha própria vida para defendê-lo.

      Juramento é coisa séria. O gatinho acreditou nas palavras hipócritas da fera e, com pena da sua lentidão, aceitou o tigre como aluno.Um aluno tão aplicado que não demorou muito para o gatinho ensinar ao tigre tudo o que sabia, faltando só uma aula.

      No dia dessa última aula, o tigre estava tão animado, pensando que logo poderia agarrar e devorar o seu rechonchudo e apetitoso professor, que ficou com a boca cheia d’água. Mas o gatinho, que já ia ensinar o seu último truque ao tigre, percebeu que o seu aluno o olhava com olhos cobiçosos, literalmente babando de apetite. E quando o tigre lhe perguntou, querendo certificar-se, se o mestre Gato já lhe ensinara tudo o que sabia, o gatinho disse:

       – Sim, naturalmente. Ensinei-lhe tudo, tudinho.

      Mas ficou bem atento. Aí o tigre, querendo ser astuto, falou, para desviar a atenção do professor:

       – Mestre Gato, olhe atrás de você quem está subindo naquela árvore!

      E assim que o gatinho se voltou, o tigre escancarou a bocarra, arreganhou os dentes e deu um pulo para a frente. Mas o gatinho, que já pressentia a traição, foi mais esperto: rápido como um raio, de um salto só, ele trepou na árvore e, do alto de um galho, fora do alcance do tigre, olhou severo para o seu aluno e gritou, indignado:

       – Fera ingrata! É assim que você honra o seu juramento? Por sorte eu não lhe ensinei como trepar nas árvores, senão já lhe estaria servindo de sobremesa.

       – Você não me ensinou tudo, gato danado! – rosnou o tigre, lançando-se furioso contra a árvore, sem poder escalá-la e mordendo sua casca sem resultado.

      Mas o gatinho, saltando de galho em galho e de árvore em árvore, só parava de vez em quando para acariciar os bigodes e olhar zombeteiramente para o tigre. Este urrava de frustração e raiva impotente, vendo-se logrado pelo esperto gatinho, que saltou ágil e alegre até sumir de vista.

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